sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Monólogo de Natal-Aldemar Paíva

 
Monólogo do Natal – Aldemar Paiva 

Eu não gosto de você, Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humildade, jogavam pedra nessa fantasia.
Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa, me tornei rapaz, sem esquecer, no entanto, o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente e a noite inteira eu esperei, contente.
Chegou o sol e você não chegou.
Dias depois, meu pobre pai, cansado, trouxe um trenzinho feio, empoeirado, que me entregou com certa excitação.
Fechou os olhos e balbuciou: “É pra você, Papai Noel mandou”.
E se esquivou, contendo a emoção.
Alegre e inocente nesse caso, eu pensei que meu bilhete com atraso, chegara às suas mãos, no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda, ele partiu dando muitas voltas.
Meu pai me sorriu e me abraçou pela última vez.
O resto eu só pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a seco: “Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro, na cidade”.
Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar e, como quem não quer abandonar um mimo que nos deu, quem nos quer bem, disse medroso: “O senhor vai trocar ele?
Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele.
E por favor, não vá levar meu trem”.
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que, eu ainda creio,
Tanto e tão santo, só Jesus chorou!
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou; ele não deu ouvidos. Saiu correndo e nunca mais voltou.
Você, Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou. Sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre para a riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com o Natal.
Meu pobre pai doente, mal vestido, para não me ver assim desiludido, comprou por qualquer preço uma ilusão e, num gesto nobre, humano e decisivo, foi longe pra trazer-me um lenitivo, roubando o trem do filho do patrão.
Pensei que viajara, no entanto, depois de grande, minha mãe, em prantos, contou-me que fôra preso.
E como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia, entrou na cela e o libertou pro céu. 
Aldemar Paíva
O Jornalista ( também radialista, poeta e escritor ) Aldemar Buarque de  Paiva, nacionalmente conhecido como Aldemar Paiva, fundou a Rádio  Difusora de Alagoas em 1948. Em 1951 se transferiu para o Recife
onde prestigiado, substituiu Chico Anísio no “ cast “ do Rádio Clube de Pernambuco.  
Ocupou os cargos de Diretor Artístico da PRA-8, Diretor Geral do Rádio  Clube e Rádio Tamandaré. Aos anos 70 se transferiu para o Rádio e TV  Jornal do Commercio onde se aposentou 13 anos depois.
Assinou páginas de humor - Demagracinhas, Diário do Dema, O Causo eu conto, Mesa de pista - no Diário de Pernambuco, Diário da Noite e  Jornal do Commercio.  
Aldemar Paiva é cidadão do Recife e de Pernambuco, possui as Medalhas do  Mérito Cidade do Recife e Joaquim Nabuco (classe ouro) assim como a láurea de Memória Viva do Recife. Compositor, parceiro do maestro Nelson Ferreira, sócio da Sbat e UBC com um total de 70 músicas gravadas.  
Pertence à Academia de Artes e Letras de Pernambuco, 

7 comentários:

  • Anônimo says:
    27 de dezembro de 2010 04:08

    Esta mensagem é profunda e nos faz refletir no que vive os menos favorecidos,pois vivem apenas de sonhos, fantasias que não podem realizar enquanto são realidades para os ricos.

  • Bete Meira says:
    27 de dezembro de 2010 09:45

    No natal as diferenças sociais se acentuam muito e mostram claramente o quanto esse mundo é injusto. Não gosto da figura do papai noel porque faz com as pessoas esqueçam quem é o verdadeiro natal, quem é o aniversariante que merece louvor e honra: Jesus Cristo! Natal é Jesus,e não papai noel.

  • Anônimo says:
    7 de janeiro de 2011 00:25

    Olá Historiador e representante dos servidores da educação. Gostaria de dizer que existem muitos desse tipo, igualmente ao papai-noel, não fazem outra coisa, a não ser representar os interesses das elites, sem nenhuma cerimônia, e ainda detestando aqueles que são reacionários às injustiças sociais. O papai-noel só é engraçado porque se veste de burrice, ou seja, usa uma roupa típica de país de clima frio, onde as temperaturas estão abaixo de 0ºC, num país como Brasil, onde as temperaturas chegam a mais de 40ºC. É bom que morra desidratado.

    Abraços e um excelente 2011.
    Prof. José Carlos Leite/CERU

  • Anônimo says:
    30 de outubro de 2013 13:39

    ESTOU SEM PALAVRAS, MAS. DIGO-LHE...PERFEITO....VOSSO ROTEIRO....CRÍTICO E SEM MÁCULA E ISTO QUE NOSSAS CR PRECISAM CONHECER...PAPAI NOEL...ESSA IDEOLOGIA TEM QUE ACABAR URGENTE...E SE DEPENDER DA MINHA PESSOA ACABOU HOJE....MUITO OBRIGADA!

  • Marcos Thomas says:
    25 de dezembro de 2013 12:34

    Na verdade esse monologo, poema, ou até quem sabe uma narrativa de um fato real é de um ator chinês desconhecido.

  • Marioluiz1970 says:
    9 de julho de 2014 18:15

    Seja de quem for, não importa, é maravilhoso.

  • Anônimo says:
    14 de agosto de 2014 13:23

    Texto brilhante. Foi interpretado há um bom tempo por Lúcio Mauro, na escolinha do Professor Raimundo. Sim, ele mesmo. Lúcio Mauro. Um gênio que não sabia somente fazer o Brasil rir, mas refletir sobre os problemas do Mundo - dando voz a essa obra de Aldemar Paiva. Quem quiser sentir o talento basta procurar no YouTube. O Chico já se foi. Obrigado Chico.O Lúcio, graças à Deus, está entre nós.

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